A meio do romance, estás a trabalhar numa cena em que o protagonista volta à casa onde cresceu. Queres descrever a casa: as cores, a disposição das divisões, o cheiro. Lembras-te de já teres falado dela antes. Mas o que disseste, ao certo? E em que capítulo?
Começas a procurar. Meia hora depois tens apontamentos de três cenas diferentes e, em cada uma, a casa é ligeiramente diferente. Decides ficar com a versão do capítulo 3, porque é a que soa melhor. Só que agora tens de confirmar se a descrição do capítulo 7 não contradiz essa escolha.
É exatamente este o problema que a bíblia da história resolve.
De onde vem o termo e o que significa
A expressão “bíblia da história” (em inglês story bible, series bible ou show bible) vem da televisão. Há décadas que os criadores de séries preparam documentos deste género. Antes de se filmar o primeiro episódio, já existe um documento que descreve todas as personagens, o mundo, as regras narrativas e o tom.
Porquê? Porque uma série é uma obra coletiva. Dezenas de argumentistas, realizadores e atores têm de entender aquele mundo da mesma maneira. A bíblia é o ponto de referência de todos, seja qual for o momento em que entraram na produção.
Na escrita de ficção, a bíblia da história resolve um problema um pouco diferente. Não se trata de coordenar muitas pessoas, mas de coordenar quem és hoje com quem eras há seis meses: a pessoa que escreveu o capítulo 3 e sabia tudo sobre aquela casa.
O que deve conter uma bíblia da história
As boas bíblias variam de projeto para projeto. Um romance de fantasia exige um âmbito diferente do de um thriller passado nos dias de hoje. Ainda assim, há categorias úteis em quase todos os casos.
Perfis das personagens. Não se trata de ensaios biográficos, mas de factos atuais: o aspeto da personagem, o que quer nesta história, o que sabe e o que não sabe em cada ponto da narrativa, que relações tem com as outras personagens. Aquilo que uma personagem sabe define o modo como se pode comportar. Uma personagem que, no capítulo 4, não sabe que o irmão está vivo não pode agir como se soubesse.
Lugares. Cada lugar importante deve ter uma descrição breve: aspeto, atmosfera, o que tem de relevante para o enredo. Quanto tempo demora a viagem entre dois lugares também é um facto que volta a aparecer e tem de se manter coerente.
Regras do mundo. Na fantasia isto é evidente: como funciona a magia, que limites tem, quem pode fazer o quê e porquê. Mas também há regras do mundo na prosa realista: como funciona a empresa onde o protagonista trabalha, que regras vigoram no meio em que vive. Factos que, uma vez estabelecidos, têm de ser respeitados até ao fim.
Linhas narrativas. Uma lista das linhas do enredo em curso: quais estão abertas, quais fechadas, quais suspensas de propósito. Sem esta lista, é fácil esquecer uma delas ou resolvê-la cedo demais sem dar por isso.
Como construir a bíblia enquanto escreves, e não depois
O erro mais comum: o escritor acaba o primeiro rascunho e decide “fazer a bíblia antes de começar a rever”. Não resulta, porque já se esqueceu de metade dos pormenores e ir buscá-los ao texto leva imenso tempo.
A bíblia da história só funciona se for atualizada à medida que avanças. O ideal é depois de cada sessão de escrita, ou pelo menos depois de cada capítulo.
Uma abordagem prática: não tentes escrevê-la ao mesmo tempo que escreves o romance. Em vez disso, no fim de cada capítulo, reserva quinze minutos para extrair dele os factos novos e registá-los. O que ficaste a saber de novo sobre o mundo? Que traços de uma personagem vieram ao de cima? Surgiu algum lugar novo? Abriu-se ou fechou-se alguma linha narrativa?
Com este método, a bíblia cresce naturalmente com o texto e está sempre em dia. O trabalho de a manter reparte-se em pequenas doses, em vez de se transformar numa tarefa enorme para fazer “um dia destes”.
Como funciona na prática em projetos longos
Num romance com mais de oitenta mil palavras, uma dúzia de personagens ou mais e um mundo bem desenvolvido, a bíblia pode chegar às quinze páginas, ou mais. Continua a ser fácil de gerir.
Muitos escritores experientes dizem que a bíblia acaba por valer mais do que o próprio texto, porque guarda o conhecimento de forma condensada e fácil de pesquisar. Em vez de procurares a descrição da casa em trezentas páginas de manuscrito, abres o documento e ali está ela.
Como a Vellam aplica o mesmo princípio
Uma bíblia feita à mão assenta num princípio: cada cena nova é lida à luz do que veio antes. A Vellam funciona da mesma maneira, só que internamente.
Cada capítulo é analisado tendo em conta os anteriores: o que já se sabe sobre as personagens, que linhas narrativas estão abertas, o que aconteceu. As observações que recebes não tratam o capítulo atual como se estivesse isolado do resto; comentam-no como mais um elo do texto inteiro.
Isto não substitui a tua própria documentação, se gostas de ter uma visão completa do estado do projeto. Mas, se o que te importa é que a análise perceba o teu romance e não apenas um fragmento dele, é precisamente daí que vem a diferença.
Se te interessa manter a coerência de personagens concretas ao longo do texto, lê também o artigo sobre a coerência das personagens num romance. A bíblia da história e o acompanhamento da coerência das personagens são duas ferramentas que funcionam melhor em conjunto.