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Trabalhar com um editor: controlo de alterações, papéis e o fim das versões perdidas no email

Na pasta do romance está o romance_v7_FINAL_correcoes_MR.docx, ao lado o romance_v7_FINAL_correcoes_MR_minhas.docx, e algures num email da semana passada anda a versão a que a tua editora acrescentou três notas. Já ninguém sabe ao certo se essas notas chegaram a algum lado. Isto não é um problema de arrumação. É o risco de o manuscrito que envias ir sem metade daquilo que os dois combinaram.

Este artigo é sobre trabalhar com um editor de modo a evitar exatamente isso: o que acertar antes do primeiro capítulo, o que faz de facto o controlo de alterações, quem deve ter que nível de acesso e o que muda quando deixam de trocar ficheiros e passam a trabalhar num único texto. Uma nota antes de continuar: aqui, editor é a pessoa que trabalha sobre o teu manuscrito, não a empresa que o publica. A essa chamamos editora.

Porque é que a troca de ficheiros descamba

O modelo «envio um ficheiro, recebo um ficheiro com correções» parece inofensivo e avaria sempre nos mesmos quatro sítios.

Ninguém sabe qual é a versão verdadeira. Basta que, nos três dias em que o editor trabalha no capítulo quatro, tu corrijas o capítulo dois na tua cópia. A partir daí há duas verdades, e alguém tem de as coser à mão.

As notas perdem-se na fusão. Um comentário preso a uma frase que entretanto reescreveste costuma evaporar-se com ela. Ninguém dá por isso até se descobrir que a única coisa que precisava de ser verificada nunca o foi.

As correções são aceites em bloco. Quando um documento tem cento e trinta alterações à espera e o prazo era ontem, «aceitar todas» é tentador. É assim que decisões conscientes do autor desaparecem de um livro, porque o editor as leu como incoerências.

As rondas duram semanas. Cada troca de ficheiro é um ciclo completo: enviar, esperar, reler tudo desde o início, devolver. Em três rondas de revisão, isso é um mês de calendário gasto em logística e não em trabalho sobre o texto.

O que combinar antes de o editor abrir o ficheiro

A maior parte dos conflitos entre autor e editor nasce do que ficou por dizer no início, não de diferenças de gosto. Cinco coisas que vale a pena pôr por escrito:

  1. O âmbito. A revisão estrutural (composição, ritmo, motivações das personagens), a revisão de texto (a frase, o estilo, as repetições) e a revisão de provas (ortografia, pontuação, gralhas) são três serviços diferentes. Misturá-los numa só passagem acaba com alguém a polir frases de um capítulo que vai ser cortado. A ordem está explicada no guia sobre como rever um romance.
  2. Quem tem a última palavra. Por omissão, o autor. Mesmo assim, diz-o com todas as letras, juntamente com a segunda metade do acordo: se rejeitares uma correção, o editor tem direito a saber porquê, senão o mesmo problema volta daqui a três capítulos.
  3. O que é deliberado. Quebrar as regras de propósito é normal na prosa: frases sem verbo nas cenas de ação, sintaxe torta de propósito na fala de uma personagem, a repetição como figura de estilo. Faz essa lista logo no início, ou vais receber cem correções para rejeitar.
  4. Como assinalar dúvidas. O editor precisa de uma forma de dizer «não tenho a certeza, confirma» sem mexer no texto. Um comentário preso à passagem funciona. Uma observação perdida num email à parte não funciona.
  5. Prazos por capítulo, não por livro. «Revisão pronta até ao fim do mês» não diz nada sobre se estão dentro do prazo a meio do mês.

Controlo de alterações: uma proposta em vez de uma alteração

O controlo de alterações é um modo em que a correção não substitui o texto, torna-se uma proposta. As inserções aparecem como acrescentos, as eliminações ficam visíveis e riscadas em vez de desaparecerem, e o autor percorre-as por ordem, aceitando ou rejeitando cada uma. Os processadores de texto oferecem este mecanismo há vinte anos, e na revisão ele existe por uma única razão: manter a autoria de cada decisão onde ela pertence.

Isto conta mais do que parece. Um editor sem controlo de alterações tem duas más opções. Ou corrige diretamente, e o autor nunca sabe o que mudou, ou descreve cada correção em comentários, e o autor tem de reescrever tudo à mão. O controlo de alterações acaba com esse dilema. O editor trabalha à velocidade normal e o texto original fica intacto até o autor dizer que sim.

Uma regra prática para rever as propostas: vai por ordem e decide uma de cada vez. Sempre que rejeitares alguma coisa, deixa uma frase de justificação num comentário. Custa dois minutos por capítulo e poupa uma ronda inteira de explicações. Guarda o «aceitar todas» para a situação para que foi pensado: quando já leste mesmo tudo e só queres fechar o ficheiro.

Quem deve ter que acesso

O editor, o leitor beta, a revisora e o agente são quatro relações diferentes e, no entanto, costumam receber todos o mesmo ficheiro. Uma divisão sensata é esta:

Editor
Acesso total de edição, idealmente em modo de propostas. É a única pessoa com motivo para estar dentro do texto.
Leitor beta
Comentários, sem edição. O valor dele é a reação de um leitor, não a correção. Falamos mais disto no artigo sobre leitores beta.
Revisora
Edição em modo de propostas, mesmo no fim do processo, quando o conteúdo já está fechado.
Agente ou editora
Só leitura. Estão lá para avaliar o manuscrito, não para trabalhar dentro dele.

O âmbito é uma questão distinta do papel. Um leitor beta convidado para comentar um capítulo não precisa do livro inteiro, e muitas vezes nem o devia ter: a opinião sobre o capítulo sete vale tanto mais quanto menos essa pessoa souber do que planeaste para o capítulo vinte.

Como funciona na Vellam

A Vellam vai um passo além da troca de ficheiros: o editor abre o mesmo capítulo em que estás a escrever. Veem-se um ao outro em tempo real.

Um texto, duas pessoas, nenhuma versão. Podem escrever os dois ao mesmo tempo, até no mesmo parágrafo. Não há bloqueio do tipo «outra pessoa está a editar», não há botão de guardar nem há o momento em que a alteração de um apaga a do outro. O cabeçalho do livro mostra os avatares de quem está lá dentro, com uma indicação como «a editar: Capítulo 3», e no texto vês o cursor do teu colaborador na cor dele, com o nome. Se a ligação cair, continuas a escrever, o indicador avisa «Offline. As alterações sincronizam quando a ligação for restabelecida», e é isso mesmo que acontece.

Modo de sugestões. O editor ativa-o com um só interruptor no menu de ferramentas. A partir daí, tudo o que acrescenta aparece a verde, e tudo o que apaga fica no sítio, riscado a vermelho. Tu recebes uma barra de revisão por cima do texto: um contador do tipo «3 de 17», setas para a proposta seguinte e anterior, quem a fez e se é uma inserção, uma eliminação ou uma substituição, e dois botões, «Aceitar» e «Rejeitar». As setas levam o texto até ao sítio certo, por isso nunca andas à procura de uma proposta a olho. As ações em massa estão relegadas para um menu secundário, porque rever uma correção é uma decisão por passagem, não um clique.

As propostas não contaminam o manuscrito. É um pormenor que funciona de outra maneira na maioria das ferramentas e que tem consequências reais. Enquanto não aceitares uma proposta, o resto do sistema comporta-se como se ela não existisse: a análise do capítulo, a exportação, a contagem de palavras e o teu objetivo diário de escrita veem a tua versão, não a do editor. Uma palavra sugerida não conta para o teu objetivo até a aceitares.

Papéis em vez de confiança. Dás acesso com um link de convite que traz associados um papel e uma data de validade. O papel de Editor trabalha no texto, o de Comentador lê e comenta, o de Leitor só lê. Podes convidar alguém para capítulos escolhidos em vez do livro inteiro. Também decides se a pessoa convidada vê os comentários dos outros, o que conta quando tens vários leitores beta ao mesmo tempo: opiniões recolhidas de forma independente valem mais do que um coro.

O manuscrito não sai de casa. A camada de colaboração corre na nossa própria infraestrutura, sem nenhum serviço intermediário por onde passe o texto do teu livro. Num romance inédito, isto não é um pormenor técnico. Há mais sobre papéis, comentários e partilha na página de colaboração.

O que esta colaboração não faz

Vale a pena ser franco quanto aos limites, porque eles influenciam a forma como montas o processo.

O modo de sugestões é para o dono do livro e para o papel de Editor. Um Comentador pode ler e comentar, mas não pode propor uma alteração ao texto. Se queres que a tua revisora possa sugerir alguma coisa, ela precisa do papel de Editor e do modo de sugestões ligado. Convidá-la como Comentadora e esperar propostas não vai resultar.

As propostas funcionam dentro de um parágrafo. Podes propor inserir, apagar ou substituir parte de uma frase ou de um parágrafo. Não podes propor dividir um parágrafo em dois, mudar uma cena de sítio ou reordenar capítulos. Isso faz-se com o modo de sugestões desligado, depois de o combinarem num comentário.

Não há histórico de versões. Não podes voltar ao estado do texto de há duas semanas. Anular com o atalho de teclado abrange as tuas alterações, não as do teu colaborador.

Não há menções. Os comentários têm respostas, podem ser marcados como resolvidos e ficam presos a uma passagem selecionada, mas não existe uma notificação do tipo «@Marta, vê isto».

Como montar o processo inteiro

Juntando tudo, uma forma sensata de percorrer um livro é esta:

  1. Termina a tua própria revisão. O editor não está lá para apanhar o que tu próprio terias apanhado. Verifica a frio se o livro está pronto antes de comprometeres alguém com horas de trabalho.
  2. Combina o âmbito, os prazos e quem tem a última palavra. Por escrito, antes do primeiro capítulo.
  3. Dá acesso pelo papel, não pela simpatia. O editor como Editor, os leitores beta como Comentadores, o agente como Leitor.
  4. Acertem o modo de trabalho. O editor em modo de sugestões, tu a rever as propostas capítulo a capítulo e não em bloco.
  5. Revê à medida que avançam. Um capítulo revisto na mesma semana em que foi editado é uma conversa. Um capítulo revisto um mês depois é arqueologia.
  6. A revisão de provas no fim, numa passagem à parte, sobre conteúdo já fechado.

Tudo o que vem depois é trabalho sobre o texto, que é precisamente a parte para a qual valeu a pena arrumar a logística.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre um editor e um revisor?

O editor trabalha sobre a forma como o texto funciona: a composição, o ritmo, as motivações das personagens, o estilo e a construção da frase. O revisor trata da escrita propriamente dita, ou seja, da ortografia, da pontuação e das gralhas. Entram por esta ordem, porque rever provas de um conteúdo que ainda vai mudar é trabalho deitado fora.

O autor tem de aceitar todas as correções do editor?

Não. A última palavra é do autor, e a boa prática é avaliar cada proposta em separado e deixar uma justificação curta sempre que rejeitas uma. Isso permite ao editor reconhecer as tuas decisões de estilo deliberadas e deixar de as assinalar nos capítulos seguintes, o que poupa a ambos uma ronda inteira.

Como trabalhar com um editor num só documento sem perder o fio às versões?

A resposta mais simples é deixar de multiplicar ficheiros. Um único texto que as duas pessoas podem abrir, correções feitas como propostas para aceitar ou rejeitar, e comentários presos a passagens concretas em vez de descritos por email. Assim não há nada para fundir, porque nunca chega a existir uma segunda versão.

Que acesso dar a um leitor beta?

Comentários sem direito de edição, de preferência limitados aos capítulos sobre os quais lhe estás a pedir opinião. Um leitor beta está lá para te dar a reação de um leitor, não para reescrever frases. Se várias pessoas estiverem a ler ao mesmo tempo, pondera esconder os comentários de umas às outras, para que ninguém se deixe influenciar pelo que outra pessoa já disse.

A colaboração em tempo real serve para rever um livro inteiro?

Para capítulos e cenas, sim. É esse o seu uso natural: um ciclo curto de correção e decisão, sem rondas de email pelo meio. A revisão estrutural de um livro inteiro continua a precisar de uma conversa à parte sobre composição e ritmo, porque essas questões não se resolvem com propostas dentro do texto.

A Vellam permite-te convidar o editor para o mesmo capítulo em que estás a escrever, e as correções dele chegam-te como propostas que aceitas ou rejeitas uma a uma. As primeiras ~5000 palavras são grátis.

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